Em um dos momentos mais complexos e turbulentos da história recente do Oriente Médio, a geopolítica israelense passa por uma transformação silenciosa, porém profunda. Em entrevista recente concedida à JNS TV, Amichai Chikli, Ministro dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo de Israel, detalhou as razões e os bastidores de uma verdadeira guinada diplomática: a aproximação de Jerusalém com os partidos da direita ideológica e conservadora na Europa.
Historicamente mantidas à margem do diálogo oficial por governos anteriores, siglas como o Vox na Espanha, o Rassemblement National (RN) na França, o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) e o Chega em Portugal passaram a integrar o raio de interlocução estratégica de Israel. Esta mudança de diretriz reflete não apenas o pragmatismo de um país em guerra, mas também uma redefinição ideológica sobre onde residem os aliados mais firmes da soberania judaica no cenário europeu contemporâneo.
A Diplomacia Operacional: O Ministério como “Unidade de Reconhecimento”
A justificativa para essa aproximação apoia-se em uma leitura realista das dinâmicas partidárias europeias. Segundo Chikli, enquanto o Ministério das Relações Exteriores de Israel está engessado pelas limitações do protocolo diplomático tradicional — devendo responder prioritariamente aos governos em exercício —, a pasta dos Assuntos da Diáspora atua como uma “unidade de reconhecimento” (reconnaissance unit). Isso permite ao ministério cruzar fronteiras formais, dialogar com a oposição e pavimentar caminhos estratégicos antes que eles se tornem política de Estado.
O divisor de águas dessa estratégia ocorreu durante os desdobramentos da crise de reféns e da guerra declarada em Gaza. Enquanto chefes de governo como Pedro Sánchez (Espanha) utilizavam coletivas de imprensa na fronteira de Rafah para pressionar pelo reconhecimento unilateral de um Estado palestino, líderes da oposição conservadora — a exemplo de Santiago Abascal, do Vox — posicionavam-se de forma incisiva ao lado de Israel, condenando o terrorismo do Hamas e contestando as narrativas dominantes em Bruxelas.
O Lado Direito da Europa: Rompimento com o Passado e Alinhamento de Valores
Essa reconfiguração diplomática não ocorreu sem forte resistência. Organizações tradicionais da diáspora judaica na Europa e diplomatas de carreira manifestaram apreensão diante da aproximação com forças políticas rotuladas pela imprensa internacional como “extrema-direita”.
No entanto, a análise do governo israelense baseia-se nas transformações internas pelas quais esses partidos passaram:
- França e o Rassemblement National: Chikli destaca a evolução liderada por Marine Le Pen e Jordan Bardella. O expurgo do fundador Jean-Marie Le Pen — figura marcada pelo histórico negacionista — e a postura inequívoca do partido contra o antissemitismo e em defesa do Estado de Direito após o 7 de Outubro sinalizaram uma ruptura real com o passado.
- Áustria e o FPÖ: No caso austríaco, um país marcado por sensibilidades históricas profundas ligadas ao Holocausto, o processo de aproximação exigiu um rigoroso alinhamento institucional. A formalização do diálogo veio após declarações explícitas adotando integralmente a definição de antissemitismo da International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA), além da rejeição contundente aos erros do passado.
- Alemanha (AfD): Em contrapartida, com relação ao Alternative für Deutschland, Israel mantém uma postura de cautela. Embora haja convergência na pauta migratória, a presença de alas radicais e a falta de clareza adotada pelo partido em relação a regimes hostis a Israel, como o do Irã, impedem até o momento o estabelecimento de relações formais.
O Diagnóstico Ocidental: Soberania, Identidade e Imigração
Na visão dos conservadores israelenses e de seus interlocutores na Europa, o alinhamento transcende meros acordos de conveniência política momentânea. Trata-se de uma visão de mundo compartilhada, baseada no conceito do Estado-nação, na defesa dos valores judaico-cristãos e na preservação da identidade cultural diante do avanço do islamismo político.
O diagnóstico exposto na entrevista alerta para as consequências da imigração descontrolada e do politicamente correto nas metrópoles europeias. Argumenta-se que a complacência das elites tradicionais com o radicalismo religioso coloca em risco não apenas a segurança das comunidades judaicas locais — cada vez mais encurraladas no ambiente urbano europeu —, mas a própria integridade da civilização ocidental. Para os formuladores desta nova política externa, defender as fronteiras de Israel e defender a integridade nacional das nações europeias são duas faces da mesma moeda.
Verdade Histórica e Pragmatismo
Ao lidar com a Europa Oriental — em especial países como Polônia e Lituânia —, o diplomata enfatizou a importância de distinguir pragmatismo geopolítico de revisionismo histórico. Se por um lado é preciso reconhecer os crimes do nazismo alemão sem imputar culpa universal às nações ocupadas, por outro é inegociável a preservação da verdade factual sobre a colaboração local durante o Holocausto. A maturidade de uma aliança patriótica, sustenta-se, exige a capacidade de encarar a história com precisão factual.
Conclusão
A nova arquitetura das relações internacionais de Israel demonstra que o país não está disposto a permanecer refém de um consenso diplomático europeu que muitas vezes oscila entre a neutralidade omissa e a hostilidade aberta. Ao buscar novos interlocutores entre as forças emergentes da direita europeia, Jerusalém projeta uma estratégia de longo prazo: a construção de uma aliança fundada na soberania nacional, na segurança compartilhada e no combate inflexível ao extremismo ideológico.