Paris/Curitiba — Os sinalizadores coloridos que colorem os arredores das universidades francesas, as faixas estendidas nas fachadas das grandes escolas e os anfiteatros ocupados lembram uma realidade geopolítica antiga. Enquanto o ministro israelense de Assuntos da Diáspora, Amichaï Chikli, alertava Paris sobre uma « aliança ímpia entre os islamistas e a esquerda radical » que alimenta os distúrbios na Europa e ameaça as comunidades judaicas, um paralelo histórico vertiginoso se impõe.
Além da Europa, este fenômeno revela uma estratégia de alcance transcontinental. Ao cruzarmos as lentes do passado — como a onipresença da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat nos campus ocidentais dos anos 1970 — com a realidade do século XXI, surge um vetor crítico frequentemente ignorado: a conivência das reitorias e dos ministérios de tutela, somada a uma articulação geopolítica global que hoje utiliza as universidades públicas do Brasil como solo fértil para a mesma doutrinação radical.
1. Anos 1970: A idade de ouro do terceiro-mundismo e a complacência de ontem
No rescaldo de maio de 1968, as universidades europeias fervilhavam com uma energia contestatória. No rastro das lutas anticoloniais, a causa palestina se impôs como o totem absoluto da extrema esquerda.
- A tutela da OLP e da FPLP: A organização de Yasser Arafat e movimentos como a FPLP conduziram uma vasta ofensiva cultural e diplomática. Os grupamentos trotskistas e maoístas serviram de correia de transmissão direta para essas palavras de ordem.
- A covardia institucional: Diante dessa radicalização, as reitorias e os ministérios da Educação da época optaram por uma política de conciliação ou de falsa neutralidade. Temendo ferir as « liberdades acadêmicas » ou inflamar a juventude, governos e direções toleraram a implantação de células radicais, permitindo que redes extremas se enraizassem sob a justificativa de preservar uma “paz social” ilusória.
2. A Europa de hoje: A interseccionalidade e a “demissão” das elites acadêmicas
Cinquenta anos mais tarde, a causa palestina ressurge com intensidade redobrada na Europa, impulsionada pela denúncia de Amichaï Chikli sobre a « aliança ímpia » entre esquerda radical e islamistas.
- A leniência dos campus europeus: Instituições como Sciences Po ou a Sorbonne enfrentam críticas por sua gestão leniente de bloqueios e incidentes antissemitas. Cenddo às pressões por medo de escândalos midiáticos ou de acusações de islamofobia, as reitorias concedem legitimidade institucional a discursos que cruzam a linha vermelha do antissemitismo.
- O papel ambíguo dos governos: Os ministérios da Educação oscilam entre discursos de firmeza e tergiversações táticas, enviando sinais de fraqueza interpretados por facções radicais como um cheque-branco para ocupar o espaço público.
3. O Brasil no radar: A expansão da doutrinação nas universidades públicas federais
O que ocorre nos anfiteatros europeus encontra hoje um eco direto e alarmante do outro lado do Atlântico, no Brasil. As universidades públicas federais e estaduais brasileiras tornaram-se alvos estratégicos de redes de influência ligadas a pautas islâmicas radicais e a movimentos de esquerda identitária.
- A infiltração ideológica e o ativismo sob verniz acadêmico: Sob o pretexto de debates sobre geopolítica, direitos humanos, decolonialismo ou solidariedade internacional, diretórios acadêmicos, centros de estudantes e núcleos de pesquisa em ciências humanas de universidades brasileiras (como USP, Unicamp, UnB e UFRJ) abrigam frequentemente palestras, seminários e coletivos abertamente alinhados a narrativas extremistas. Grupos ativistas com conexões ou simpatias por organizações fundamentalistas do Oriente Médio encontram nas federais brasileiras um ambiente de extrema tolerância — quando não de incentivo — por parte de coletivos estudantis hegemônicos e de setores do corpo docente.
- A conivência das reitorias brasileiras: Assim como na Europa, as reitorias e o Ministério da Educação (MEC) no Brasil muitas vezes adotam uma postura de omissão acovardada. Amparados pelo princípio constitucional da autonomia universitária, dirigentes acadêmicos frequentemente fecham os olhos para a instrumentalização político-ideológica das salas de aula e para a importação de discursos de ódio — incluindo episódios de retórica antissemita disfarçada de antisionismo —, com medo de enfrentar pressões corporativas ou de ser rotulados de “censores”.
- A internacionalização da agenda: Para esses grupos, o Brasil não é uma exceção periférica, mas um palco latino-americano de extrema relevância para legitimar narrativas globais, recrutar jovens militantes nas faculdades e moldar a opinião pública do Sul Global contra as democracias ocidentais e o Estado de Israel.
Conclusão
A radiografia das revoltas estudantis — dos anos 1970 à Europa de hoje, e agora estendendo-se às universidades públicas do Brasil — expõe uma falha sistêmica idêntica. Trata-se da conivência criminosa ou da covardia calculada das elites acadêmicas e ministeriais.
Hierarquias que deveriam zelar estritamente pelo rigor científico, pelo pluralismo democrático e pela segurança física de todos os estudantes acabam por transformar os campus em cabos de retransmissão de extremismos globais. O alerta de Amichaï Chikli sobre a periculosidade dessas alianças crucia fronteiras, lembrando que a fragilização das democracias ocidentais começa exatamente onde o saber acadêmico se rende à doutrinação radical.
Um programa para mitigar esse problema da doutrinação dos estudantes no Brasil nos próximos anos
Para enfrentar o avanço da radicalização e da instrumentalização político-ideológica nas universidades públicas brasileiras, torna-se urgente a implementação de um programa nacional de resgate da pluralidade acadêmica, fundamentado no estrito cumprimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e do princípio constitucional da imparcialidade pedagógica. Essa iniciativa estruturada exigiria, em primeiro lugar, a criação de ouvidorias independentes e mecanismos de fiscalização rigorosos vinculados ao Ministério da Educação e aos conselhos superiores, com o objetivo de coibir o assédio ideológico, garantir o direito de livre expressão a todos os discentes e punir a utilização de salas de aula e verbas públicas para a propaganda de facções extremistas ou o proselitismo político partidário.
Em segundo plano, o programa deveria investir na transparência institucional e na valorização do pensamento crítico genuíno por meio de auditorias regulares sobre a destinação de espaços físicos, o financiamento de eventos acadêmicos e as parcerias firmadas com entidades externas ou coletivos ativistas. As reitorias passariam a responder legalmente por qualquer omissão diante de episódios de intolerância, intimidação ou manifestações de ódio disfarçadas de ativismo acadêmico, garantindo que o campus retorne à sua vocação primordial: a busca imparcial pelo conhecimento científico e o debate plural de ideias, e não a conversão em correias de transmissão de agendas geopolíticas radicais globais.
Por fim, a estratégia abrangeria o fortalecimento da cooperação internacional e o intercâmbio de boas práticas com democracias ocidentais que já enfrentam desafios semelhantes de infiltração extremista em seus sistemas de ensino superior. Ao promover o letramento midiático, o rigor metodológico e a estrita observância da laicidade e dos direitos humanos universais, o Brasil daria um passo decisivo para blindar sua juventude universitária contra a manipulação ideológica, assegurando que as universidades públicas voltem a ser um patrimônio de excelência a serviço de toda a nação, e não trincheiras de conflitos estrangeiros.