A geopolítica do Oriente Médio é, por definição, uma telenovela de prestígio onde os roteiristas parecem permanentemente sob efeito de substâncias alucinógenas. Mas o episódio que uniu um cockpit em pânico, o Ministério dos Transportes de Israel e a realeza saudita conseguiu superar qualquer ficção barata. É uma narrativa rica em suspense, chauvinismo burocrático e, claro, o tradicional e inabalável jogo duplo da diplomacia saudita: aquela arte milenar de aceitar o socorro de Israel no escuro, mas fingir que o vizinho tem lepra quando as câmeras estão ligadas.
Ato I: O Pânico nas Alturas e o Pouso Forçado em Terra de Ninguém
Tudo começou com a rotina aparentemente pacífica de um voo da Flydubai rumo a Tel Aviv. No entanto, o que deveria ser uma viagem comum transformou-se rapidamente num episódio digno de suspense psicológico. Dentro da cabine de comando, a harmonia deu lugar a um conflito digno de briga de trânsito em rodovia federal, envolvendo tensões entre os pilotos e suspeitas de que um deles carregava no currículo uma charmosa dupla nacionalidade — incluindo laços com Omã, país que para Israel é praticamente um holograma diplomático.
Com os ânimos exaltados e a segurança do voo comprometida, a aeronave foi forçada a realizar um pouso de emergência em Tabuk, na Arábia Saudita. E foi aí que o espetáculo começou. De repente, dezenas de passageiros israelenses viram-se presos em solo saudita, transformados involuntariamente em peões de uma partida de xadrez diplomática que eles nem sabiam estar jogando. Encurralados no calor do deserto, os viajantes iniciaram a clássica maratona de horas de espera, rezando para que a burocracia internacional decidisse o destino deles antes que o estoque de café do aeroporto acabasse.
Ato II: Miri Regev Entra em Cena (e Ocorre o Apocalipse Burocrático)
Enquanto os passageiros contavam os grãos de areia em Tabuk, a política israelense fervia. A ministra dos Transportes, Miri Regev — figura conhecida por sua habilidade dramática em transformar qualquer regulamento de tráfego aéreo num incidente de segurança nacional de proporções épicas —, entrou em ação com a sutileza de um trator D9.
Tomada por um furor patriótico e implacável, Regev prontamente exigiu do primeiro-ministro a suspensão imediata de todos os voos da Flydubai para Israel. O argumento? Um ultraje imperdoável: a presença de um piloto com passaporte omanita violava os sagrados acordos aéreos bilaterais. Para a ministra, era preferível deixar a malha aérea do Golfo em polvorosa do que permitir que um cidadão com laços em um país sem relações oficiais sobrevoasse o espaço aéreo soberano com uma xícara de café nas mãos. Enquanto isso, a Autoridade de Aviação Civil recebia ordens para congelar tudo, transformando a papelada diplomática numa barricada intransponível.
Ato III: O Jogo Duplo de Riade — O Socorro Escondido e a Recusa Pública
Mas se a burocracia israelense tinha seus dramas, o verdadeiro show de comédia negra acontecia na Arábia Saudita. Diante da necessidade urgente de resgatar os cidadãos retidos em Tabuk, o bom senso sugeria uma solução simples: enviar um avião israelense para buscar sua própria gente.
Pobre de quem ainda acredita em bom senso na península arábica.
Com uma altivez digna de novela das nove, a Arábia Saudita disse um rotundo e solene “não”. Autorizar um avião com a estrela de Davi na cauda a pousar em solo saudita? Jamais! Afinal, o que diriam os puristas do regime? O que pensariam os aliados regionais? O decoro diplomático de Riade simplesmente não suportaria o vexame público de admitir que um avião israelense pisasse em sua areia sagrada à luz do dia.
O detalhe deliciosamente cínico de toda essa recusa puritana? Enquanto Riade se fazia de difícil para resgatar civis indefesos, a mesma Arábia Saudita bate à porta de Israel nos bastidores toda vez que os mísseis dos rebeldes Houthi ameaçam estragar o café da manhã da realeza. Quando o perigo vem do Iêmen, a ajuda tecnológica e de inteligência de Tel Aviv é aceita com um sorriso no rosto e muita gratidão em voz baixa. Mas na hora de devolver passageiros à luz do sol, o orgulho nacional fala mais alto. É o clássico “faça o que eu preciso, mas não me deixe ser visto com você”.
O Epílogo: A Solução de Recurso e a Hipocrisia de Sempre
No fim, a lógica tortuosa da região encontrou uma saída mambembe. Como os sauditas não podiam aceitar os israelenses e os israelenses não podiam engolir o piloto omanita, coube a um avião civil dos Emirados Árabes Unidos fazer o papel de bombeiro. A aeronave emiratis pousou em Tabuk, recolheu os passageiros exaustos e os levou de volta para casa, permitindo que todos mantivessem suas aparências intactas.
Os passageiros voltaram para casa, Miri Regev ganhou manchetes suficientes para alimentar sua base política por um mês, e a Arábia Saudita continuou a equilibrar-se na corda bamba de sua esquizofrenia geopolítica: odiando em público, implorando ajuda em segredo e provando, mais uma vez, que no Oriente Médio a única coisa mais rápida que um jato comercial é a velocidade com que os princípios morais são adaptados à conveniência do momento.